Ao perdermos as florestas do mundo, estaremos perdendo a luta contra as mudanças climáticas, pois estas mudanças, induzidas pela ação humana, são uma realidade premente. O desmatamento nos trópicos e subtrópicos contribui com 18 a 25% das emissões de carbono, o que é inferior apenas à emissão produzida pelos combustíveis fósseis.No debate sobre políticas a adotar, predominam as soluções baseadas em uso de energias limpas, entretanto, as florestas, sem dúvida, oferecem uma das maiores oportunidades para ações de custo efetivo e imediatas, e necessitam ser tratadas com a mesma urgência agora.
A questão do uso de estratégias de mitigação para os gases de efeito estufa deve continuar permeando todos os setores, inclusive estabelecendo limites adicionais para as emissões industriais, porém os esforços para chegar imediatamente às metas de redução para 2030 não serão alcançados a menos que lutemos contra as emissões relativas ao desmatamento.
Não se trata aqui, apenas, do problema do destino do carbono, uma vez que a floresta tropical - seus solos e áreas inundáveis - já absorve e estoca carbono; mas trata-se também do fato de que ela abriga e mantém metade das espécies de vida da Terra. É esta biodiversidade que mantém nossa atmosfera e provê a humanidade com serviços ecológicos vitais dos quais depende. Estes serviços incluem a geração de chuva, a regulação climática regional, a conservação de habitats, a proteção dos recursos hídricos e a estabilização do solo, tanto em escala local quanto global.
São serviços dos quais toda e qualquer pessoa do planeta se beneficia, sem pagar nada por eles.
As nações em desenvolvimento, embora guardiãs das florestas tropicais do mundo, não são responsáveis pela alteração climática, no entanto as conseqüências advindas de tais mudanças recairão pesadamente sobre nações, que, como elas, possuem menos condições e meios de se adaptar ao problema.
Suas florestas provêem o alimento de 1,4 bilhões dos pobres do mundo, que, sem outra fonte de combustível ou de renda, são pressionados a degradar tais florestas para sobreviver.
Sem um tratamento urgente, a mudança climática levará ao decréscimo da produção agrícola, ao aumento da pobreza e assim forçará migrações e conflitos entre os habitantes das áreas atingidas. Porém, lidando com o problema das florestas, de imediato, poderemos melhor ajudar os pobres, prover alimento e segurança energética e ambiental para todos, e, assim, a contribuir para atingir as Metas do Milênio das Nações Unidas.
Os povos das florestas, as comunidades e os governos,necessitam de incentivos reais para manter e fazer crescer seu capital florestal. O desmatamento e a degradação florestal sofre direcionamento por parte das demandas externas, tais como a necessidade de madeira, de carne, de soja e de bioenergia, o que leva ao abate de árvores para a obtenção de terras e acaba por ampliar o aquecimento global. Apesar de tudo isso, a floresta tropical continua a ser excluída dos mercados de carbono que poderiam
representar exatamente a estratégia alternativa necessária para a conservação das mesmas. Ao invés disso, estabelecem-se incentivos perversos que encorajam a transformação e a degradação das florestas e desencorajam a sua restauração e a sua capacidade de contribuir para o desenvolvimento sustentável.
A ciência é clara e a tecnologia esta disponível, porém conservação das florestas, tem se mostrado incompatível com as questões comerciais e econômicas. Não existem doadores de fundos que sejam suficientes para um extenso programa de conservação de florestas que pudesse fazer diferença em larga escala, porém novos mecanismos de mercado podem oferecer fontes adicionais sustentáveis para o financiamento requerido.
Agir pelas florestas com urgência é fundamental para vencer a mudança climática, é uma vitória vital para os ecossistemas florestais e, assim, uma vitória para toda a humanidade.
Portanto, conclamamos os governos a:
1. Assegurar que os créditos de carbono gerados pela redução de emissões advindas do desmatamento e a proteção das florestas sejam incluídos em todos os mercados de carbono,nacionais e internacionais, especialmente naqueles criados sob a inspiração da Convenção- Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças do Clima;
2. Simplificar e expandir as regras efetivas do mercado de carbono, sobretudo as do MDL – Mecanismo de desenvolvimento Limpo, a fim de encorajar o reflorestamento, a recuperação de áreas degradadas e o manejo sustentável das florestas;
3. Incluir os créditos de carbono associados às florestas e ao uso da terra no Sistema Europeu de Mercado de Carbono (European Union Trading Scheme),mantendo,ao mesmo tempo, fortes incentivos para a redução das emissões industriais;
4. Encorajar ações e novos mecanismos de mercado que reconheçam o valor do estoque de carbono e os serviços ambientais dos ecossistemas florestais; e apoiar padrões apropriados ao mercado voluntário de carbono;
5. Fornecer assistência às nações em desenvolvimento para gerar capacidade para participar plenamente nos mercados de carbono e avaliar os serviços ambientais que suas florestas fornecem;
6. Incentivar a recuperação e o uso sustentável de ecossistemas e de terras degradadas, e banir os incentivos que levam à destruição das florestas.